06/06/2022 às 23h37min - Atualizada em 07/06/2022 às 00h01min

Governo cria câmara técnica para avaliar dados de desmatamento, mas deixa de fora órgãos ambientais

Cientistas ouvidos pelo Jornal Nacional avaliam que a iniciativa é desnecessária e que a criação de uma nova instância para avaliar os dados do Inpe pode atrasar a divulgação das informações sobre o desmatamento.

G1 Brasil
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2022/06/06/governo-cria-camara-tecnica-para-avaliar-dados-de-desmatamento-mas-deixa-de-fora-orgaos-ambientais.ghtml

Cientistas ouvidos pelo Jornal Nacional avaliam que a iniciativa é desnecessária e que a criação de uma nova instância para avaliar os dados do Inpe pode atrasar a divulgação das informações sobre o desmatamento. Os programas de monitoramento de desmatamento e de queimadas são feitos há décadas pelo Inpe
Reprodução/JN
O governo federal criou uma câmara técnica para avaliar os dados de desmatamento no país. Órgãos ambientais ficaram de fora.
A resolução que criou a câmara consultiva não dá muitos detalhes sobre como irá funcionar, mas diz que o objetivo é “qualificar os dados de desmatamento e incêndios a fim de diferenciar crimes ambientais de outras atividades, utilizando bases de dados oficiais já existentes”.
A nova câmara será coordenada por um integrante do Ministério do Meio Ambiente e composta por representantes dos ministérios da Agricultura, Defesa, Economia e Justiça.
O grupo poderá convidar especialistas e técnicos para reuniões específicas, mas "sem direito a voto" nos temas debatidos.
Os programas de monitoramento de desmatamento e de queimadas são feitos há décadas pelo Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Mas nenhum dos dois órgãos foi incluído pelo governo no novo comitê.
Cientistas ouvidos pelo Jornal Nacional avaliam que a iniciativa é desnecessária porque os órgãos de controle, como Ibama e ICMBio, conseguem identificar os crimes ambientais na Amazônia. E que a criação de uma nova instância para avaliar os dados do Inpe pode atrasar a divulgação das informações sobre o desmatamento.
O cientista Gilberto Câmara, ex-diretor do Inpe, diz que o instituto é referência pela excelência nos dados sobre desmatamento e queimadas.
“O Inpe fornece dados com qualidade desde 1988. Nós temos condição de fazer quaisquer análises adicionais que por acaso o governo precise. Só nos resta uma hipótese muito negativa de que o governo esteja querendo não qualificar, mas desqualificar os dados do Inpe. Quanto do desmatamento é ilegal? Nós já sabemos. Quanto desmatamento ocorreu em unidade de conservação? Quanto desmatamento é grilagem? Quanto de desmatamento ocorreu em área de soja? Quanto desmatamento é pastagem? Todos esses dados nós já sabemos”, afirma o cientista.
Tasso Azevedo, do MapBiomas, afirma que mais de 90% dos alertas de desmatamento revelam indícios de ilegalidade e critica a ausência de órgãos como o Inpe, o Ibama e o ICMBio no novo comitê do governo.
“Não faz sentido que uma câmara que está com o mandato de identificar o que é crime ou que é uma ilegalidade e que não é, ela não tem a participação dos órgãos ambientais, que é quem faz esse tipo de análise. Em vez de lidar direto com o problema que é pegar os dados que a gente já sabe do que é ilegal e agir sobre eles, você inventa mais um mecanismo para poder dizer se aquilo é legal ou ilegal, o que é desnecessário”, diz Tasso Azevedo.
Em nota, o sindicato que representa os servidores do Inpe classificou a iniciativa de ataque ao instituto: “Como de outras vezes, essa tentativa de excluir o Inpe do monitoramento de queimadas e do desmatamento na Amazônia não foi por falta de competência, mas por nosso trabalho sério e qualificado mostrar ao mundo verdades inconvenientes.”
O Ministério do Meio Ambiente não deu retorno ao contato do Jornal Nacional.

Fonte: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2022/06/06/governo-cria-camara-tecnica-para-avaliar-dados-de-desmatamento-mas-deixa-de-fora-orgaos-ambientais.ghtml
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